quarta-feira, novembro 26, 2014

«UM DEUS PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE»



Segundo o The New York Times Book ReviewUm Deus Passeando pela Brisa da Tarde «é simultaneamente um estudo envolvente sobre a conduta moral de um homem e uma reflexão provocadora sobre a dificuldade de se levar uma vida virtuosa numa era em constante mudança». Este romance, internacionalmente conhecido e o mais premiado de Mário de Carvalho, (...) 
Lúcio Valério Quíncio é o magistrado de Tarcisis, cidade romana da Lusitânia no século II d. C. Como dirigente máximo, cabe-lhe tomar todas as decisões, enquanto tumultuosos acontecimentos conduzem a pequena cidade ao descontentamento geral. No exterior, notícias de uma invasão bárbara iminente, proveniente do Norte de África, obrigam-no a drásticas medidas, enquanto, no interior das muralhas, uma nova seita, a Congregação do Peixe, põe em causa os valores da romanidade, evocando os ensinamentos dum obscuro crucificado. No plano íntimo, a paixão devastadora por uma mulher, Iunia, perturba-o e confunde-o, mas sem o afastar do cumprimento do seu dever.
Neste romance em que a ficção se sobrepõe à História, traduzido em nove línguas e galardoado com o Prémio de Romance e Novela da APE, o Prémio Fernando Namora, o Prémio Pégaso de Literatura e o Prémio Literário Giuseppe Acerbi, Mário de Carvalho reconstitui as características culturais, políticas e quotidianas do Império Romano (...)

Fonte da descrição que acima se lê: http://www.portoeditora.pt/imprensa/noticia/ver/um-deus-passeando-pela-brisa-da-tarde-de-mario-de-carvalho?id=8223
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Deve ser dos livros mais completos que tenho lido nos últimos tempos. Baseado em sólida erudição, consegue criar um ambiente verosímil que permite um mergulho trans-milenar do leitor numa das épocas mais ricas - para o melhor e para o pior - da História do Ocidente, isto em matéria de ideias, valores, influências, hábitos. Um tempo de cruzamento de culturas e de colisão de valores e crenças, devido sobretudo à irrupção, vinda do Oriente semita, de um novo credo que, inimigo declarado de todos os outros, pretende criar uma nova ordem mundial... Com razão se têm desde há muito, na época contemporânea, estabelecido paralelos entre esta Antiguidade tardia e o mundo actual, como já Alain de Benoist fez notar ao referir que os «modernos» se vêem espelhados nos romanos tardios. Isto reflecte-se nesta narrativa, e/ou aliás, na abordagem que tenho lido a esta obra de M. de Carvalho, em que a personagem principal é a todo o momento confrontada nos seus valores aristocráticos, e também no seu cepticismo, com um mundo igualmente céptico, cínico, mas cada vez mais plebeizado, e violentíssimo, e submerso numa crise de valores, termo que já se tornou, actualmente, num lugar-comum, talvez porque continue na ordem do dia. A palavra «crise» deve aqui entender-se no seu sentido literal e original, dado que, em Grego, «crisis» significa precisamente «mudança». 
Passando-se a cena na Lusitânia, interessa mais particularmente à História da raízes de Portugal, assentes numa romanização de elementos indo-europeus arcaicos, nomeadamente lusitanos e não só, que a obra de Mário de Carvalho não deixa de referir.
Merece particular destaque, a meu ver, o modo como representa a postura dos primeiros cristãos e seus grupos geralmente marginalizados, odiosos pela atitude de conflito aberto que se empenham em criar com o resto da sociedade - «contra o mundo, que está sob  Demo...» - chegando ao ponto de actuar de forma notoriamente subversiva, pondo por isso em risco a sobrevivência da polis diante dos seus inimigos externos. 
Estereotipa talvez um pouco a aristocracia romana. A narrativa apresenta-a como uma classe toda ela cínica e descrente, quase ateia, a começar pela própria personagem principal, Lúcio Valério Quíncio, que, pedante de cima a baixo, enjoado com tanta «vulgaridade» da arraia-miúda e com o sangue que se derrama nos divertimentos das massas, prenhe de desprezo por tudo quanto é popular, populares incluídos, acredita pouco nos Deuses romanos e ainda menos nos Deuses lusitanos, que não se esquece de citar (nomeadamente Trebaruna e Endovélico). Recomendo-o todavia pelo seu valor de conjunto.